Outras definições foram traçadas nos últimos anos, interpretações que não desconsideram as antigas, mas acrescentam, como a que se apresenta no raciocínio de Sérgio Lima, que faz uma divisão da linguagem em três níveis, considerando também o realismo e a arte abstrata além do surrealismo; o realismo quanto ao nível global, sobre o significado; a arte abstrata, quanto ao nível estrutural, sobre as regras; e, por fim, o surrealismo, quanto ao nível elementar, sobre os símbolos dos quais a mensagem é composta.
Collage é uma linguagem de imagens, mesmo quando se relacionam palavras, sons e movimentos, pois todos esses remetem a imagens mentais, ou seja, a projeções visuais produzidas pela imaginação e apreendidas pela memória.
A imagem é própria do ser humano, pois só é imagem a partir do momento que se tem consciência dela. É representação num processo que transcende a escrita, por não ser linear. É diferente de símbolo, pois esta inserida num contexto específico, num cenário preciso. O surrealismo estabelece a relação das imagens naturalistas com a recusa do dado e da livre constituição de sentido. Essa concepção é totalmente explícita na collage, pela recusa no momento do “recorte” e a livre constituição durante a “colagem”.
“Este fascínio a que aludimos (sua fascinação e sua erótica) decorre da função simbólica da imagem (como linguagem da experiência vivenciada mesmo) e que revista, subvertida, revolucionada na sua forma poética/plástica, readquire o sensível LIMA, 1984, p. 303)”.
Sobre a escolha e a definição do material, Sergio Lima diz que acontecem de acordo com a predileção e pelo acaso-objetivo. Afirma que a escolha não é caótica nem enumerativa, mas sim aleatória e necessária, guiada pelo desejo e pela creação pura do espírito, ou seja, pelo processo de produção da arte em que há o
descobrimento, onde “no vale das analogias e da visão simbólica. (...) aflora como objeto determinante da errância – daquele que vagueia e faz escolhas instantâneas” (LIMA, 1984, p. 304)
Tesoura
O momento do corte consiste em rever a imagem em si mesma, já que esta ao se tornar uma imagem já foi percebida por determinado ponto de vista. “É a poesia que existe em todos nós que permite haver prazer em nosso relacionamento com as coisas do mundo que nos rodeia. Porém o ‘ver da poesia’ é que libera em nós o sentimento de liberdade” (LIMA, 1984, p. 176).
É nesse momento, quando fragmentos da imagem são retirados, deslocados, destacados, rasgados, ou melhor, raptados do cotidiano, que ocorre a rejeição do contexto e a aceitação de uma parte com significados particulares (símbolo, memória). Essa rejeição ou distanciamento, por si só, já dá para este elemento uma espécie de destaque. Durante o debate sobre collage no livro de Sergio Lima, os envolvidos dão o exemplo de um trabalho realizado com uma medalha, em que supostamente não há recorte, porém aí a situação de recorte é vista como o ato de retirar esse objeto da sua posição social e trazer seus significados para dentro da obra, sugerindo uma nova dinâmica, com novo contexto ou reflexão.
“(...) não se trata de “danificar por danificar”, de destruir por destruir: é essencial agregar nuclearmente à própria revolta um sentido pessoal definido, reflectido [sic], premeditado de modo a gerar a ideal “mudança de estado” do «objecto» [sic] original no sentido da sua superação e, portanto, da construção a partir da sua “meticulosa, educada destruição” de uma nova – e desta vez, verdadeira! – consciência individual e colectiva [sic] da realidade. (ACABADO, 2007)”.
Essa é parte do processo de collage análoga à relação do inconsciente e dos sonhos nas obras surrealistas, pois enfatiza os símbolos e alegorias, trabalhando com fragmentos, interrupções, deslocamentos, etc. E que possibilita a não linearidade e a simultaneidade.
Cola
A articulação de elementos desconexos pertence a um sincronismo que se dá numa nova superfície e na organização desses enquanto plano e símbolos. É nesse momento final do processo de produção da collage que se concretiza a proposta de livre associação, quando ocorre a reutilização ou re-codage que é a reconjugação da memória, re-significação do símbolo, recodificação. Diferente de reciclagem ou da aglomeração de materiais da colagem. É quando há a passagem para uma nova linguagem com o uso dos significados da imagem.
É o momento em que o poeta proporciona novo encontro aos fragmentos, fazendo a composição “descompromissada”, que se dá com a combinação de elementos apolíneos e dionisíacos, substituindo o real verdadeiro pelo real imaginário, estabelecendo comunicação entre o mundo exterior, transformando o que parece estranho ao ser humano em coisa próxima assimilável.
“A metáfora dos encontros tem a função de conectar fragmentos, figuras, espaços, tempos e culturas completamente diferentes. A collage, como lugar dos encontros, obriga as figuras recortadas a narrarem outras histórias, muitas vezes distintas daquelas a que foram destinadas ou representavam originalmente. O encontro poético conjuga-se quase sempre em termos topológicos divergentes: a visão do outro, a minha e a dos demais podem coexistir em uma multiplicidade de referentes perceptivos espaço-temporal, próprios das figuras fotográficas (distanciamentos, pontos de vista, profundidades, etc.), sobre uma mesma superfície (FUÃO, 1996)”
Collage hoje
As possibilidades são inúmeras num trabalho de collage, sem que exista uma suposta delimitação. Da mesma forma, é a organização do mundo contemporâneo, que já é disperso e fragmentado devido à relação do ser humano com a rapidez dos acontecimentos e o princípio de recortar e colar estar presente inclusive virtualmente. Em seu artigo, Carlos Machado Acabado refere-se ao artista que faz collage como “colleur” e o caracteriza como aquele que quer questionar e afrontar a época em que vivemos que o cerca e oprime, referindo-se a atualidade como a Idade Mídia. Hoje em dia, ainda que não de um modo geral, a collage é muito mais reconhecida em todas as artes. Nas artes cênicas a collage está explicita principalmente na estrutura da performance, presente tanto na elaboração final do espetáculo quanto no projeto de criação. A maneira mais simples de perceber a collage em espetáculos é sem dúvida com o trabalho de códigos e resignificação, por exemplo, na montagem da companhia de São Paulo Os Satyros da peça “Vestido de Noiva”, escrita por Nelson Rodrigues, um homem utiliza como serrote uma tesoura, enquanto outro utiliza como telefone um regador. Ou ainda pode se pensar na composição de coreografias como as de Pina Bausch ou da artista brasileira Juliana Moraes, no espetáculo “Corpos Partidos”, em que os movimentos são
alicerçados em imagens e sensações criadas a partir das esculturas da artista britânica Rachel Whiteread.
Na literatura, exemplo interessante é a montagem de “Macunaíma”, obra de Mário de Andrade criada partindo de contos do brasileiro. Em arquitetura também, a collage é referente a projetos que utilizam obras já realizadas em sua concepção, assim também na música, e outras áreas da arte que como reflexo da collage se misturam e renascem a cada dia.
Com o distanciamento cada vez maior da modernidade, é natural que algumas características sejam revistas. Sobre o suposto “automatismo” proposto pelo dadá e o surrealismo, Renato Cohen (2002, p. 63) explica: “Primeiro que não existe “fluxo criativo” direto do inconsciente. A chamada “prosa automática” é uma abstração; para algo se “materializar” em criação, esse algo já passa pelo crivo do consciente, já nasce híbrido. Pode-se falar por tanto em graus de criação inconsciente, um estado de semiconsciência ou utilizando-se de impulsos subliminares”. Mesmo sendo fruto da vanguarda modernista européia, a collage ainda expressa a imensa inquietação humana e artística sobre a realidade.
Considerações finais
O conceito de colagem, a collage, foi pensado durante o século XX por Max Ernst, e aderido por muitos artistas ligados a vários movimentos e principalmente ao surrealismo. Durante o período pós-guerra, esses movimentos continuaram existindo e certamente estão hoje mesclados de alguma maneira às manifestações artísticas atuais, nas quais, nesse caso a collage se destaca mais ainda que há anos atrás. É cada vez mais presente o uso dessa linguagem, mesmo que inconscientemente, e talvez seja essa a grande proeza, pois como já citado, na frase de J.C. Ismael, a essência está em promover o encontro e fazer-nos esquecer que as imagens se encontram.
A idéia que fazemos de imagem é ampliada a cada dia. É fácil ver hoje em dia na cidade um outdoorcom uma enorme imagem contrastando com os prédios, ou mesmo nas estradas, contrastando com o verde. Uma criança ao desenhar formas desproporcionais, como por exemplo, um carro maior que uma casa, não
está fora da idéia de realidade, já que a imagem do carro no outdoor tem proporções bem maiores do que o real. Esse novo contexto proposto pela mídia passa despercebido pela maioria, inclusive por responsáveis por esses veículos de comunicação. Isso não quer dizer que a arte de collage é, como defendiam surrealistas e dadaístas, uma produção do inconsciente; muito pelo contrário, a conjugação das imagens só acontece com a consciência da mesma.
Observar uma collage é fazer o exercício de perceber a articulação das imagens e associá-las primeiro a seu contexto habitual e em seguida ao novo contexto proposto pelo artista. Esse processo faz da collage uma linguagem importante também na educação. Pois serve de estímulo na relação do ser humano não apenas com a obra de arte, mas com seus conhecimentos e experiências.
Essa linguagem, que dialoga com todas as expressões artísticas, surgiu junto a todas as mudanças das vanguardas modernistas, e modifica-se ou desenvolve-se até os dias de hoje, com as influências dos acontecimentos em cada período e com a capacidade do artista de criar, recriar, perceber e idealizar o mundo. A collage é a arte que dá uma nova chance para a imagem criada na consciência humana, a chance de ser luz de reflexão, grito de protesto ou suspiro do inconsciente.
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Autora: Aline Karen Fonseca
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